Cultura

O Fotógrafo e o Cangaceiro - Por Ricardo Beliel

Publicado dia 28/07/2020 às 15h51min
No dia em que é lembrada a morte do mais famoso cangaceiro do sertão: Lampião, trazemos um trecho do livro "Memórias Sagradas", em que parte das pesquisas foram feitas em Águas Belas e Itaíba. Leia:
Lampeão, Ponto-Fino (Ezequiel, irmão de Lampeão), Moderno (Virgínio, cunhado de Lampeão), Salamanta (Luiz Pedro), Mariano, Corisco, Mergulhão e Arvoredo na vila de Pombal, Bahia. 1928. O grupo de cangaceiros entrou na pequena vila nas primeiras horas da manhã e, desembestado, o chefe Lampeão pergunta aos que os recebem, um aglomerado de curiosos, se havia algum fotógrafo entre os locais. Por volta das oito horas da manhã o alfaiate, fotógrafo e maestro da Philarmonica XV de Outubro, Alcides Fraga de Mendonça, é levado ao encontro do cangaceiro com sua câmera de tirar retratos.
 
Feita a foto, Alcides pede paciência ao capitão Virgolino e se compromete a entregar o serviço assim que recebesse os químicos necessários para revela-lo, que havia encomendado em Salvador. Passados alguns dias, Fraga recebe a visita de um estranho em seu ateliê, que confessa ao alfaiate estar ali a mando do cangaceiro para buscar a encomenda. Lampeão tinha deixado Pombal em paz, sem provocar qualquer peleja, para alívio dos vizinhos de Alcides, mesmo assim, o estimado fotógrafo passou a sofrer acusações, por membros das policias baianas que passavam pela região, de ser cúmplice de seus improváveis clientes. Alcides Fraga, por via das dúvidas, caso a cabroeira voltasse a procura-lo, mudou-se com a família para Piranji, na distante zona cacaueira, e somente após a morte de Corisco pode regressar ao seu saudoso sertão.
 
Da fotografia que poderia tê-lo deixado famoso, herdou apenas um amargo exílio e o afastamento de suas atividades de maestro e alfaiate. Morreu deprimido, solitário, separado da família que amava, na vila de Cipó, distante apenas sete léguas da Pombal que o rejeitara por ter sido o autor de um histórico retrato do temido bando de Lampeão.
(trecho do livro "Memórias Sangradas", de Ricardo Beliel)
 
 
Fonte: Ricardo Beliel